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  Vinhos Uruguaios  
     
 
Um pouco de história

O Uruguai é um país cuja história vitivinícola remonta ao final do século XVII, quando os primeiros colonizadores espanhóis introduziram o cultivo das videiras, principalmente de uvas moscatel. A produção era unicamente para consumo familiar já que estava vigente a proibição de produzir uva e vinho nas colônias, estabelecida por Felipe II em 1595.
Porém foi somente na segunda metade do século XIX que o cultivo da videira começou a tomar forma e corpo de atividade comercial, com a introdução de diferentes castas européias por laboriosos imigrantes. Destacaram-se entre eles Francisco Vidiella, introdutor no país da folle noire, variedade hoje desaparecida, e don Pascual Harriague. Foi don Pascual, imigrante basco francês, quem verdadeiramente fez história. Seu sonho era elaborar um vinho de qualidade, e recordando as cepas originais de sua terra, conseguiu umas mudas de uma uva que se adaptou muito bem ao clima uruguaio: a tannat. Por volta de 1870 formou os primeiros vinhedos no Departamento de Salto, ao norte do país, gerando sua multiplicação pela região sob a denominação local de Harriague. Estes primeiros vinhedos de tannat proporcionavam abundantes colheitas de uva com boa resistência frente ao único inconveniente climático uruguaio, a umidade, produzindo-se um vinho tinto de muita cor e agradável aroma. A uva de Harriague estendeu-se por todo o país, cuja área plantada ultrapassou a da França, num crescimento geométrico que somente foi refreado pela ocorrência de viroses nos vinhedos. Concomitantemente outras variedades foram aportadas por imigrantes espanhóis e italianos.
Na década de 1950 o Uruguai produzia suficiente vinho para abastecer seu consumo interno. Este vinho, elaborado com uvas Harriague (nome local da tannat), moscatel, híbridas e isabel fundamentalmente, era apenas apto para o consumo diário. Somente algumas bodegas faziam um verdadeiro esforço em direção à qualidade, enquanto que na maioria se produzia vinho com uvas de baixa consideração enológica e grandes rendimentos no vinhedo.
Em meados da década de 1970, com o surgimento da idéia da criação do Mercosul, pairou a ameaça do desaparecimento da indústria vitivinícola uruguaia, frente aos vinhos de melhor qualidade e preço da vizinha Argentina. A situação foi definida por uma missão francesa contratada para avaliá-la. O professor Dennis Boubals, reconhecido expert mundial em viticultura a definiu em uma frase: “O Uruguai está atrasado 50 anos em sua vitivinicultura, e se pode esperar muito pouco no futuro se não houver uma rápida reação”.
Esta reação não tardou e o processo que começou naquela época logrou que o Uruguai seja reconhecido mundialmente como um país vitivinícola.
Produtores de uva e de vinho e o governo uruguaio se uniram em um esforço de mudança cujos resultados são já claros. Os primeiros passos foram a criação em 1987 do Instituto Nacional de Vitivinicultura (INAVI) e o começo da reconversão dos vinhedos, arrancando-se plantas de baixa qualidade enológica (híbridos e isabel) e plantas velhas de cepas como a Harriague, freqüentemente atacadas por viroses, e plantando-se, em terrenos selecionados, novas cepas certificadas, livres de vírus e com seleção clonal.
Neste processo de reconversão as cepas de origem francesas, unidas já à tradição vitivinícola do país, foram as eleitas majoritariamente. E entre elas a protagonista é a tannat, a velha uva Harriague, que mostra sua melhor expressão, a qual é muito diferente da que tem em sua terra originária, Madiran, sudoeste francês, onde dá vinhos muito tânicos, difíceis de beber e com escassa expressão aromática.
Enquanto se arrancavam videiras e implantavam-se novas, percebeu-se a necessidade de atualizar a indústria, iniciando-se, nos anos 1990, a reconversão industrial, introduzindo-se tecnologia, As vinícolas começaram a incorporar equipamentos de frio, modernos recipientes de aço inoxidável, novos equipamentos de desengace, filtros e prensas, e a capacitar seu pessoal na busca de ferramentas para elaborar vinhos finos, de alta qualidade e expressão própria, destinados tanto ao mercado interno como a exportação.
À partir de 1999, com os investimentos estrangeiros no setor, começou o processo de consolidação de todo modelo vitivinícola, objetivando a qualidade com potencial exportador, projetando o setor no panorama mundial dos vinhos de qualidade.
O Uruguai, também, é membro da OIV, tendo organizado em 1995 a 75a. Assembléia Mundial da OIV, considerado um feito histórico para os uruguaios (o Brasil ainda não conseguiu tal façanha).


Solo e Clima

Uruguai está situado no extremo sul da plataforma brasileira, na chamada "base cristalina" do país; possui uma posição geográfica privilegiada, que lhe permite ser um país de vanguarda na produção de vinhos finos. Localizado entre os paralelos 30 e 35 (latitude sul), iguais aos das melhores zonas vitivinícolas da Argentina, Chile, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Seu solo argiloso, um equilibrado regime de chuvas e ótimas temperaturas para o crescimento dos vinhedos, sem necessidade de irrigação, descansam em terras de uma topografia levemente ondulada.
Seu clima temperado, favorecido pela influência marítima constituída pelo Oceano Atlântico, o Rio de La Plata e o Rio Uruguai (semelhante ao de Bordeaux, mais quente do que este, inclusive), proporciona que todo o seu território seja apto para a vitivinicultura. A intensidade luminosa é similar à da Argentina e do Chile, com a influência refrescante das correntes de ar frio que sobem da Antártida. Com 18º C de temperatura média anual, 1.000 mm de precipitação, 60% de horas de sol e uma grande diversidade de tipos de solos, permite a elaboração de uma ampla variedade de vinhos. Todo o país é apto para a vitivinicultura, e ao não haver grandes acidentes geográficos as regiões se diferenciam muito pouco. Os vinhos uruguaios, geralmente, têm menor teor de álcool, porque em seu amadurecimento morfológico a uva consegue entre 12-12,5% de potencial de álcool. Igual a Nova Zelândia, onde os vinhos atingem um bom equilíbrio natural entre a acidez e a fruta. Seus taninos estão presentes de forma mais suave.


Regiões Vitivinícolas

Atualmente existem no Uruguai 9.000 hectares de vinhedos, onde se colhem, 100% à mão, em média 110 milhões de quilos de uva anualmente, dos quais 97% se destinam às cerca de 300 vinícolas, obtendo-se uma produção média anual de 90 milhões de litros. Hoje os vinhedos uruguaios são considerados entre os mais modernos do mundo por sua tecnologia, e as vinícolas elaboram vinhos de qualidade com tecnologia clássica e equipamento moderno.
A vitivinicultura é uma importante fonte de ocupação, reunindo 50.000 pessoas, uma atividade sumamente transcendente do ponto de vista sócio-econômico, representando 14% do valor da produção agrícola nacional.
Para começar a trabalhar com rigor científico no tema de procedência geográfica se realizou, no ano de 1991, a regionalização vitícola do Uruguai. Esta foi realizada pelo consultor internacional espanhol Dr.Luiz Hidalgo, no marco de um convênio entre GTZ, Alemanha, Ministério de Pecuaria, Agricultura e Pesca e o Instituto Nacional de Vitivinicultura. Está baseada fundamentalmente no clima, características edafológicas, geológicas e solos representativos, e permite reconhecer nove zonas com vocação para a produção de qualidade: Norte, Nordeste, Litoral Norte, Litoral Sul, Sudoeste, Sul, Sudeste, Central e Centro Oriental.


Uvas e Vinhos

A regionalização serviu como base da revolução dos vinhos uruguaios, mas em verdade se pode afirmar que o país é uma grande unidade geográfica, sem acidentes notórios, e com pequenas diferenças de solo e clima que justificam também pequenas diferenças entre os vinhos produzidos em uma ou outra região, sendo as variedades cultivadas e os vinhos produzidos muito similares em todo o território.
A variedade rainha é a tannat, pela qual Uruguai é conhecido no mundo inteiro. Seu séquito está formado por outras tintas: merlot, cabernet franc, cabernet-sauvignon, pinot-noir, e algumas brancas: sauvignon blanc, chardonnay, viognier, ugni blanc.
Predomina a produção de vinhos tintos varietais jovens, com alguns representantes dos vinhos de guarda e vinhos de corte de ambas as categorias. Também se produzem vinhos brancos, varietais e de corte, e alguns rosados, principalmente varietais, e um pouco de espumantes. Algumas adegas uruguaias estão começando a elaborar vinho tannat em barris de carvalho, embora sua complexidade e sólida estrutura permita elaborar misturas complexas como por exemplo com cabernet sauvignon, merlot, cabernet Franc, e syrah inclusive.
Dos 90 milhões de litros de vinho produzidos por ano, 30% são vinhos finos, em sua maioria tintos, e cerca de 50% deles são varietais de tannat. Cerca de 80% da produção está concentrada na região Sul, nos departamentos de Montevidéu, Canelones e San José.
O consumo per capita é de 33 litros/ano, colocando o Uruguai como 8º consumidor mundial, sendo 90% deste total representado por vinhos nacionais.


Tannat – Uma francesa brilhando no Uruguai

Também conhecida por outros nomes como Moustrou,Moustron, Gros Manseng, Madiran, Bordaleza Belcha e Harriague, a Tannat não conhece a mesma expressão internacional que suas irmãs clássicas.
Com cachos de tamanho médio, ombros largos e bagas que se comprimem em alta densidade, a Tannat chama a atenção pela cor da casca, fina e resistente, de um vermelho escuro, violáceo, tangendo o negro. Esta cor intensa e profunda revela a grande concentração de corantes, com destaque para os taninos.
A polpa é levemente fibrosa, de sabor franco lembrando framboesas formando um suco temperado pela taninosidade da casca expresso pela adstringência saliente. O alto teor de tanino (tannin) desua casca é responsável pela denominação predominante (Tannat).
Segundo tratadistas históricos, essa variedade provém de terras bascas, de onde se difundiu em direção ao sudoeste francês, adaptando-se bem especialmente nas encostas dos terrenos argilo-calcários dos Pirineus.
Os vinhedos de Tannat sempre estiveram mais concentrados em áreas balizadas pela vetusta cidade de Madiran, província vitícola muitas vezes secular, conhecida também por Madirannais, compreendendo os Altos Pirineus, Baixos Pirineus e Gers.Embora o número de vinhedos de Tannat venha experimentando certo declínio, ainda há vinhos nos quais essa variedade é percentualmente predominante.
Os vinhos produzidos exclusivamente de Tannat distinguem-se pela acentuada cor escura, pela adstringência marcante e pelo teor alcoólico de boa presença. Os aromas são variados, evoluindo satisfatoriamente com a idade e com a espera no cálice.
A paciência do apreciador será premiada se acompanhar atentamente um início fechado que vai se abrindo para frutas vermelhas, violetas, tabaco, madeira, suor e couro.
Na boca, sobre o travo característico, sobrevém um gosto frutado que remete a framboesa e morango, com traços de compotas.Com esses predicados mesclados, fechados e de lenta evolução, é preciso que se explore passo a passo as qualidades organolépticas desse vinho, que inicialmente podem se apresentar ocultas sob o manto de uma certa agressividade.
O vinho de Tannat é o componente majoritário nos cortes para a produção dos famosos vinhos Madiran, nos quais exibem a potência da cor e do tanino, em um conjunto harmônico com a elegância de Cabernet Sauvignon ou da Cabernet Franc.
Os vinhos de Madiran conheceram a glória nos séculos XII e XIII, quando eram moeda aceita pelos reis de França para pagamento de impostos, e largamente consumidos na corte. Em tempos recentes, esse vinho passa por uma revisão enológica que objetiva atenuar as características originais muito fortes. Um dos caminhos, trilhado pelo enólogo Ducoumeau, prevê a oxigenação forçada do vinho recém fermentado, induzindo um processo de amadurecimento precoce.
Outro, menos elaborado, aposta nos benefícios da influência das cepas Cabernet Sauvignon ou Cabernet Franc, com conseqüente redução da participação da uva Tannat de 60% para menos de 50%.
O resultado tem sido um varietal Tannat mais aveludado e redondo, ou um vinho cortado que, mantendo sua densidade e capacidade de envelhecimento, possui, adicionalmente, características para a apreciação em plena juventude.
A Tannat,como já vimos, foi introduzida no Uruguai ao redor de 1870 por imigrantes vascos, transformando-se logo "na variedade nacional", perfeitamente adaptada ao solo e clima. O Uruguai é o único produtor no mundo onde existem vinhedos significativos com quantidades maiores que em sua terra de origem: representa aproximadamente um terço da superfície de vinhedos plantadas no país.
Ultimamente esse varietal vem se consolidando como o vinho tipicamente uruguaio, como o Malbec é para a Argentina.

Principais produtores

Nos últimos anos muitos produtores vitivinícolas têm realizado um enérgico e sólido processo de reconversão de vinhedos e adegas. Os resultados mais recentes indicam um excelente desempenho. Cada ano conquistam mais prêmios nos concursos internacionais. Este reconhecimento mundial vem junto com um crescimento extraordinário das exportações, triplicado nos últimos 5 anos, superando os 4,6 milhões de litros por ano, destinadas ao Brasil, Reino Unido, Bélgica, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Suiçca, Holkanda, Alemanha e outros. Com o crescimento das exportações, e com o objetivo de atrair novos mercados, foi criada em 1999 a ABE - Associação de Bodegas Exportadoras de Vinhos Finos, que já congrega 24 empresas, com uma produção de 1,5 milhões de litros de vinhos finos por ano.
Os principais produtores são: Ariano Hnos, Bruzzone Y Sciutto, Calvinor, Carlos Pizorno, Castillo Viejo, Cesar Pisano e Hijos, Dante Irurtia, Estabelecimiento Juanico, Ferle Ltda., Jose Luis Filgueira, Juan Toscanini, Leonardo Falcone, Los Cerros de San Juan, Marichal e Hijos, Reinaldo de Lucca, Rincon, S.A. Vitícola Uruguaiana, Santa Rosa, Sunybell, Varela Zarranz, Vinos Finos H. Stagnari, Vinos Finos Juan Carrau.


Enio e Marilene Marodin


 
     
     
 
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  2004 | Morphe