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O VINHO NACIONAL É CARO?
Um ensaio sobre a cadeia produtiva do vinho
Por Werner Shumacher*
Costuma-se atribuir ao empresário nacional a fama de
chorão e na maioria
das vezes os políticos, em qualquer uma das esferas de
governo,
recebe-os preconceituosamente, inclusive menosprezando os
seus apelos,
ou talvez atendendo aos pedidos daqueles que os apoiaram
durante as
campanhas eleitorais.
Pior ainda, o empresariado nacional é acusado de ladrão,
de explorador
do consumidor, enfim o vilão da história. Vou tentar
demonstrar neste
texto a realidade do setor produtor de uva e vinho
nacional. Uma
história, que não é estória, e muito menos conto da
carochinha.
Para tanto, devo começar do começo, ou seja, da origem da
riqueza, no
meu caso, ou melhor, na minha história, ela começa pelo
produtor de uva
da Serra Gaúcha.
O PRODUTOR DE UVA
O nosso produtor rural representa um grupo de
aproximadamente 15.000
famílias tendo particularmente uma propriedade média não
superior a 2
hectares. Normalmente terras com tamanha declividade são
impróprias para
muitas outras culturas e requerem grande demanda por
mão-de-obra, e
quase sempre, acabam tornando-se uma boa forma de
sustentabilidade. Esse
grupo, como se verá mais adiante, corre sérios riscos de
vir a ter
grandes dificuldades no futuro.
Em iguais condições, de terrenos acidentados, diversas
cidades da Europa
recebem subsídios da UNESCO e da Comunidade Européia para
não virarem
cidades fantasmas, pois o custo de produção nessas
condições requer oito
vezes mais horas de trabalho, portanto, não são
competitivos sequer com
as regiões planas no mesmo continente.
Essas cidades e países formaram uma associação dos
produtores de vinhos
de montanha para promoverem e preservarem fatores sociais,
culturais e
econômicos. Desde 1996, quando participei de um Congresso
Internacional
promovido pela OIV na África do Sul, venho alertando as
lideranças e
autoridades sobre o fato.
CABE LEMBRAR QUE A SERRA GAÚCHA
É A ÚNICA REGIÃO PRODUTORA DE UVAS E VINHOS
DA AMÉRICA LATINA QUE APRESENTA
AS MESMAS CARACTERÍSTICAS
DESSAS CIDADES EUROPÉIAS.
Não devemos esquecer que o produto dessas famílias gera
uma riqueza
muito maior do que a renda por elas produzida. Afinal,
eles devem
adquirir alimentos, roupas, etc. no mercado, o que fomenta
o comércio, a
saúde, a educação, bem como fazem a indústria vinícola
empregar um
grande número de trabalhadores.
Esta gente, dependente dos caprichos da natureza, é
habituada a poupar e
como sabemos, a poupança é fundamental para um país que
precisa investir
para gerar empregos e riqueza. Poucos sabem que a poupança
no país que
mais cresce nos dias de hoje é a da China, que representa
40% de seu
PIB, ou seja, a soma de tudo aquilo que eles produzem.
Graças aos produtores rurais médicos são consultados,
professores são
contratados e assim por diante. Mas esses produtores
também precisam de
treinamento e capacitação. Por isso, existem entidades
como a Embrapa,
Emater, etc.
Será que estes produtores, que também pagam impostos,
estão recebendo do
governo a devida contrapartida? Vocês sabem como são a
maioria das
escolas rurais? São aquelas que contam com professor
mono-docente, isto
é, um professor leciona para crianças da 1ª à 5ª série do
1º grau numa
mesma sala de aula.
Recebem os pequenos produtores rurais das entidades para
isto criadas,
capacitação e treinamento para tirarem um melhor sustento
de pequenas
áreas?
Além de alimentarem o sistema, ou melhor, a circulação de
dinheiro na
nossa economia, e com isso, gerarem riqueza, são eles que
fornecem a
matéria-prima às vinícolas (entre nós, cantinas) que se
transformará,
segundo Pasteur, na mais sã e higiênica das bebidas.
AS VINÍCOLAS
Trata-se, em sua grande maioria, de um grupo de pequenas
empresas e
algumas cooperativas que recebem toda a uva desses
produtores e a
transformam em sucos, vinhos e espumantes (praticamente,
nem mais o
conhaque e alguns vermutes são feitos com base em vinho).
Estas empresas colocam a sua produção no concorrido
mercado globalizado
e pagam impostos que chegam a aproximadamente 50% do seu
faturamento, ou
seja, metade do valor do produto e, depois, o vinho
nacional é taxado de
caro. Portanto, é importante lembrar: para cada garrafa de
vinho
nacional aberta, a metade de seu valor vai para os
governos.
Um vendedor de uma loja de discos compactos (CD) disse-me
que apoiava a
pirataria. Contestei sua posição, pois, se o CD fosse, por
exemplo, do
nosso Ministro da Educação, o nosso querido Gilberto Gil,
sabia ele me
responder quanto o Gil receberia por CD vendido? Gil, o
criador de tudo,
provavelmente, não chegaria a receber 5% do valor do
produto vendido na
loja, mas, provavelmente, metade daquele valor iria parar
nos cofres
públicos. Dias depois saiu uma nota no Jornal do Comércio,
de Porto
Alegre, informando que 70% dos vinhos importados e
consumidos na China
são pura pirataria.
Muito mais entraves enfrentam as vinícolas brasileiras em
registros nos
ministérios e o seguimento a normas por eles impostas, bem
como a
legislações estaduais de recolhimento antecipado de
impostos como o
ICMS.
Para se modernizarem com novas tecnologias ou para usarem
barricas de
carvalho francês, que também não são fabricados no país,
estes
normalmente enfrentam custos de 60 a 100% acima daqueles
praticados no
Mercosul ou na Europa.
Pior, o governo não disponibiliza qualquer financiamento
com juros
razoáveis e, se compararmos com os custos e com as
benesses que são
praticados nos outros países produtores de vinho no mundo,
verificamos
que a diferença que nos separa é um caos total.
OS FORNECEDORES DE INSUMOS PARA A VITI-VINICULTURA
Muitos dos insumos utilizados pelas vinícolas são
importados e dependem
de importadores. A rolha de cortiça é o melhor exemplo.
Não há cortiça
no Brasil e, assim mesmo, a importação de rolha deve pagar
10% de
imposto de importação. Barrica de carvalho apresenta o
mesmo problema.
Fermentos selecionados igualmente, e praticamente toda a
tecnologia hoje
disponível segue o mesmo exemplo.
Estes importadores de insumos, fornecedores das vinícolas,
pagam altos
impostos de importação, além de uma pesadíssima carga de
taxas e custos
portuários, bem conhecidos como o Custo Brasil.
Não queremos culpar os vinhos importados por nossas
dificuldades, mas
como poderemos competir com países em que:
- o vinho é considerado como produto da cesta básica;
- tem uma carga tributária em sua maioria inferior a 25%
do valor do
produto, metade da carga tributária brasileira;
- oferecem subsídios às exportações;
- financiam equipamentos para vinícolas com juros
baixíssimos, não mais
de 4 % a.a. e muitas vezes a fundo perdido;
- o custo seco (caixa, garrafa, rolha, cápsula, rótulos,
etc.) chega a
ser entre 50 a 100% mais baixo do que o custo no Brasil;
Nesse ponto, gostaria de fazer uma queixa a alguns
“experts” em vinho,
formadores de opinião e a alguns consumidores. Estes
exigem de nossos
produtores de vinhos finos o uso de rolhas de qualidade
muito superior
àquela necessária, enquanto aceitam vinhos importados com
rolhas
aglomeradas, ou 1+1 (aglomeradas com discos naturais nas
extremidades)
e, inclusive, rolhas sintéticas, mas isto é assunto para
outro momento.
- há propriedades enormes, acima de 700 ou mais hectares,
contra
propriedades com não mais do que 2 ou 3 hectares entre
nós, cujo custo
de produção chega a ser, em alguns casos, 10 vezes
superior ao dos
grandes produtores (conheço um produtor argentino que
formou um vinhedo
de 4.000 hectares a troco de ICMS, incentivo dado pela
província de San
Juan).
- seus bancos financiam exportações de 180 a 360 dias e
esses prazos são
repassados aos importadores/supermercados. Qual juro
deveria praticar o
fornecedor brasileiro para poder vender nessas condições?
- já não bastassem tantas facilidades e atrativos, mais o
jeito de ser
(“estrangeirófilo”) de muitos brasileiros, um restaurante
consegue aqui
triplicar ou quadruplicar o preço de um vinho importado,
enquanto tem
dificuldades para duplicar o preço do nacional (Se você
fosse dono de
restaurante, qual vinho escolheria para por em sua
carta?). Também
merece este tema uma abordagem no futuro.
Nosso assunto não é a Embratel, mas como bem disse Carlos
F Jereissati,
em artigo na revista Exame de 12/05/04: “O empresário
brasileiro, esse
dinossauro, consegue milagres. Submete-se a uma das cargas
tributárias
mais altas do mundo, certamente a maior entre as economias
emergentes, e
ainda enfrenta concorrência desleal da economia informal –
palavra suave
para descrever o mundo dos negócios ilegais. Para o quadro
ficar
completo, o país tem taxas de juros reais recordes no
mundo, sem falar
no cipoal de regras e mandamentos da burocracia”.
O QUE FAZ O GOVERNO NACIONAL EM PROL DA NOSSA INDÚSTRIA?
NADA. Para satisfazer o padrão de consumo da maioria dos
brasileiros, de
certo modo, até oficializou a fraude, permitindo a
fabricação de
produtos como o AGRIN, que substitui o vinagre puro de
vinho, por uma
porcentagem deste misturado a vinagre de álcool de cana
(muito mais
barato). Também misturas de vinho com sabores, vermutes
sem vinho na
composição, conhaques, isto mesmo, com qualquer álcool,
menos aquele
originado da destilação de vinho.
Não sou contra a fabricação desses produtos. É típico de
um país de
baixa renda e de pouca cultura em relação ao vinho. Estes
produtos
deveriam ser fiscalizados melhor. Entendo que os produtos
puros deveriam
ser mais valorizados, o vinho é fruto de um agro-negócio,
que deveriam
ser beneficiados com impostos mais baixos, pois são os
verdadeiros
criadores da riqueza.
Muitos Consulados e Embaixadas brasileiras no exterior não
servem vinho
nacional em seus eventos e isto também ocorre seguidamente
em eventos
promovidos pelo Planalto. Nos Estados Unidos, ao
contrário, isto é lei,
só vinho nacional.
O suco de uva, produto de alto valor alimentício, com
estudos
científicos que comprovam seus benefícios, poderia ser
introduzido na
merenda escolar, mas na hora da licitação, concorre com
refrescos, vejam
bem: REFRESCOS!
O Rio Grande do Sul fez alguma coisa. Repassa ao setor
através do
IBRAVIN recursos do ICMS, mas as somas repassadas são
mínimas e muitas
vezes são utilizadas para executar tarefas que deveriam
ser custeadas
pelo Ministério da Agricultura, como o Cadastro Vitícola,
mas também
pratica dupla fiscalização através da Secretaria da
Agricultura,
enquanto o mesmo não ocorre em outros estados.
Sabemos que há problemas estruturais, uma vez que o preço
pago aqui pelo
kg de uva é 5 a 10 vezes superior à média mundial.
Soluções para estes
problemas só virão a ocorrer com a união dos governos e
dos operadores
do setor vitivinícola, a fim de otimizar custos, divulgar
o produto da
nossa gente e investir no turismo, aliás, de fundamental
importância
para um crescimento sustentado.
No entanto, se não houver uma intervenção do governo,
promovendo um
crescimento sustentado e ecologicamente correto e
capacitando nosso
produtor rural é melhor utilizar a sua propriedade e
mantê-lo no meio
rural. Este será mais um candidato ao êxodo rural, a
procurar por
emprego nas cidades, engordando a massa de desempregados.
Não queremos favores, queremos apenas igualdade de
condições para poder
competir neste mundo globalizado com dignidade. Caso
contrário terá de
se seguir o exemplo do vendedor da loja ou o de alguns
chineses.
Ou, se voltarmos no tempo, será possível verificar que
hoje estamos
enfrentando os mesmos motivos que levaram os
revolucionários
Farroupilhas a lutar pela independência da província,
quando o charque
proveniente do Uruguai chegava mais barato à capital do
Império do que
aquele gaúcho, com forte carga tributária. Ou quem sabe,
devemos ser
novamente colônia de Portugal, quando o Movimento da
Inconfidência
Mineira foi instaurado porque a coroa queria cobrar 20%
sobre o ouro
recolhido no território das Minas Gerais.
Deixemos claro, o que hoje vivemos não é culpa de um
governo, mas de
décadas de desgoverno deste país, onde só se “administra”
as
conseqüências, a fim de se amenizar os problemas e jamais
se ataca às
verdadeiras causas de nossa estagnação (que também merece
nossa análise
oportunamente).
Para reflexão, sito como exemplo o Brasil, campeão mundial
de reciclagem
de latas de alumínio. Atrás dessa grandiosidade está a
quantidade enorme
de brasileiros que dependem de catar latinhas para
sobreviver. O Brasil
- Campeão de Reciclagem - é a conseqüência da causa: a
miséria de grande
parte do povo brasileiro.
Bento Gonçalves, 26 de maio de 2004.
* Werner Schumacher
Economista e Empresário
Conselheiro da ABE Associação Brasileira de Enologia
Sócio-fundador da APROVALE Assoc. dos Produtores de Vinhos
Finos do Vale
dos Vinhedos
Vice-Presidente da ABRAFIV - Assoc. Brasileira dos
Fornecedores de
Insumos e Equipamentos para o Setor Viti-Vinícola.
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