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  Syrah e os simpatizantes da diversidade no mundo de Baco  
     
 

Historicamente pouco afeito a sobressaltos, o mundo do vinho sofreu
significativas mudanças nos últimos 20 anos. A não ser a guinada do consumo em direção aos tintos - ocorrida após a divulgação, em 1991, dos estudos comprovando os efeitos benéficos que esse gênero de vinhos tintos produzia nas artérias coronarianas -, pode-se afirmar que as transformações no setor se deram em função da entrada dos países do Novo Mundo no cenário vinícola internacional.

Conceitos como o de vinho varietal - há predominância de uma variedade de uva na sua composição e ela é sempre mencionada no rótulo - e de que a bebida deve estar apta a ser consumida imediatamente, descomplicaram o processo de escolha.
É bem verdade que em meio às vantagens trazidas por essas inovações uma série de aspectos negativos devem ser apontados. O principal deles é a concentração em torno da Cabernet Sauvignon para os tintos e Chardonnay para os brancos, desvirtuando uma das principais virtudes da bebida de Baco, a diversidade.

Tudo indica que esse quadro deverá mudar no futuro. Ao lado do movimento em busca de um diferencial - caso da Argentina, promovendo a Malbec, e o Chile fazendo o mesmo com a Carmenère -, nota-se nos últimos anos um crescimento acentuado no prestígio de duas uvas, a Syrah e a Sauvignon Blanc, que já estão ameaçando o reinado até aqui tranqüilo da Cabernet Sauvignon e da Chardonnay. Se a Sauvignon Blanc tem alguns caprichos e precisa de um clima mais ameno para
ressaltar seu grande atributo, o frutado intenso e o frescor, a Syrah é bem mais eclética e se adapta com facilidade a locais com temperaturas medianamente elevadas, característica, aliás, de boa parte dos países do Novo Mundo.

Para cair nas graças do mercado de nada adiantaria à Syrah ter apenas boa capacidade de aclimatação. Ela tem como grande trunfo o fato de poder seduzir os consumidores com uma intensa sensação de fruta madura, bom volume em boca e taninos agradáveis. A propósito, é no quesito taninos que a Syrah leva boa vantagem sobre a Cabernet Sauvignon, uma casta que nem sempre prima por maciez no paladar.

A despeito de ser cultivada há mais de mil anos no Vale do Rhône, sul da França, em especial na parte setentrional (região do Cote Rotie e do Hermitage, por exemplo) onde continua brilhando soberana, a Syrah renasceu e ganhou destaque
com a ascensão dos vinhos australianos. Há algumas diferenças de estilo entre o modelo francês e o que é produzido na Austrália, e eles têm a ver com o clima dos dois países. No fundo, os syrahs franceses, por provirem de uma região menos quente, têm mais acidez e podem ser considerados mais elegantes, enquanto os correspondentes australianos são mais encorpados e dão ênfase à fruta.

Vinícolas mundo afora, independente das condições climáticas existentes onde estão instaladas, procuram seguir um ou outro modelo. Como nem sempre isso é possível, é melhor não confiar na forma como a uva é mencionada no rótulo do vinho - Syrah, se o estilo pender para a França, ou Shiraz, caso o conceito seguir a linha da Austrália, já que é assim que a uva é, por tradição, ali conhecida.
Fora de suas origens novos vinhedos de Syrah vêm sendo implantados e alguns exemplos de sucesso fazem com que esse processo tenda a se intensificar. A seguir vai uma seleção de vinhos elaborados integralmente com uva Syrah, provenientes de seis países diferentes. Além desses em destaque, outros, comercializados no Brasil, merecem ser citados. Do Chile, na falta do Montes Folly, o primeiro grande syrah chileno (não consta do último catálogo da Mistral), vale lembrar do Tabali Reserva Syrah 2003 e De Martino Syrah Reserve Single Vineyard 2003 da Argentina o Finca El Portillo Syrah 2004, Viña Alícia
Syrah 2002 e o recém- lançado Terrazas Reserva Syrah 2003; e da África do Sul o Fairview Solitude Shiraz 2001, Spice Route Flagship Syrah 2001 e Saxenburg Private Collection Shiraz 2001.

Dos países europeus, Portugal e Itália mostram rótulos bem interessantes, em mais de uma região. Entre os portugueses a estrela é um vinho da Extremadura, o Quinta do Monte d´Oiro Homenagem Antonio a Carquejeiro 99, mas cujo preço irreal (US$ 298) obriga a migrar para seu irmão menos nobre, o Quinta do Monte d´Oiro Reserva 2000 (US$ 86,50 ), valendo ainda menção o Lagoalva de Cima Syrah 2000 (US$ 59,90), produzido no Ribatejo. Os italianos estão desenvolvendo com êxito a Syrah na Toscana e na Sicília. Na charmosa Toscana o primeiro produtor a ser reconhecido foi o Isole e Olena com o Collezione de Marchi Syrah, e tem agora um concorrente de alto nível, o potente Scrio Syrah 2001. Entre os sicilianos aparece em especial o Planeta Syrah 2001, o Mandrarossa Syrah 2003 e o Spadafora Schietto Syrah 2001.

Fonte: Jorge Lucki

Valor Econômico (04/10/2005)

 
     
     
 
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