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  Reflexões sobre Enófilos  
     
 

Os enófilos, os amantes do vinho, se dividem em duas categorias. A primeira é o
enófilo imaturo (não necessariamente em idade) que, como os taninos imaturos de
certos vinhos muito jovens, precisa de tempo para amaciar, se tornar gentil e
palatável. A segunda é o enófilo maduro (também não necessariamente em idade)
que amadureceu e, como um bom vinho evoluído, adquiriu estrutura, polidez,
elegância, requinte e, sobretudo, autenticidade e honestidade.

O enófilo maduro acredita na velha máxima "o vinho é um ser vivo" e sabe que
mesmo os gêmeos univitelinos, ditos idênticos, só o são fisicamente, pois são
indivíduos distintos, que pensam, sentem e agem de modo diferente ou, às vezes,
até de modo semelhante, mas nunca igual. As infinitas possibilidades de conexões
entre seus bilhões de neurônios cerebrais, fazem com que a chance de serem
pessoas idênticas seja, estatisticamente, nula. O enófilo maduro também sabe que
o vinho é composto por milhares ou, pelo menos, centenas de substâncias que se
interagem de modo complexo e quase totalmente desconhecido, desde a sua
elaboração até o envelhecimento na garrafa. Por isso, o enófilo maduro sabe que
cada vinho, de cada safra, de cada barril e de cada garrafa, é um ser único, com
gestação, nascimento, história, personalidade, estilo e longevidade próprios.

O enófilo maduro sabe que não há respostas exatas, nem genéricas, para muitas
questões sobre o vinho, como o tempo de envelhecimento, o tempo de aeração
necessário antes de servi-lo, a sua harmonização com alimentos, e tantas outras.
O enófilo imaturo sofre com a ausência de respostas para essas questões,
enquanto para o enófilo maduro tais interrogações são os deliciosos mistérios do
vinho que lhe aumentam o prazer de conhecê-lo mais e bebê-lo sempre.

O enófilo maduro sabe que também na degustação ou análise sensorial do vinho há
questões sem resposta e conclusões polêmicas. Ele sabe que quando os seres
humanos, extremamente complexos, se põem a analisar a qualidade de outros seres
vivos razoavelmente complexos, como os vinhos, os resultados são muitas vezes
divergentes, às vezes semelhantes, mas nunca iguais! Ele sabe que, baseado nos
parâmetros técnicos estabelecidos como virtudes ou defeitos de um vinho, pode
analisá-lo e conferir-lhe atributos quanto à idade, ao estilo, à qualidade e a
outros quesitos. Ele concorda que análises técnicas, feitas por degustadores de
bom nível de conhecimento, geralmente dão resultados semelhantes e
estatisticamente válidos, porém nunca há concordância absoluta entre eles. Em
alguns casos a pode haver grande discordância, é o chamado "vinho polêmico". Às
vezes, não há discordância sobre virtudes ou defeitos do vinho, mas sobre como o
vinho "deveria ser", não expressar o seu "terroir" ou por ter mudado de estilo
ou, até mesmo, por razões que até Deus duvida!

O enófilo imaturo lê compulsivamente livros e revistas especializadas, faz
cursos de vinhos, participa incessantemente de degustações e se orienta pelas
opiniões de enófilos mais experientes, porém não necessariamente maduros. Como
depende da opinião alheia, não sabe porque faz a sua escolha. Ele diz: "Esse
vinho é bom (ou ruim) porque eu não gosto (ou não gosto) dele". O enófilo maduro
continua lendo, ouvindo, aprendendo e degustando, mas sem sofreguidão, pois o
conhecimento e a experiência adquiridos lhe conferiram segurança. Ele tem
opinião própria sobre vinhos, sabe analisá-los tecnicamente, reconhecer seu
nível de qualidade e, mais importante, sabe apreciá-los em sua essência,
elegendo-os ou não como seus preferidos. O enófilo maduro diz: "Esse vinho é
ruim por tais e tais defeitos" ou "Esse vinho é bom, mas não é da minha
preferência" ou "Esse vinho é simples, mas bom para o dia-a-dia".

O enófilo maduro se interessa por sugestões de vinhos, mas não as aceita
cegamente. Ele sabe que as avaliações de vinhos, geralmente expressas em notas,
feitas por críticos, revistas e guias são importantes instrumentos de orientação
para os iniciantes. Já os enófilos imaturos devotam obediência cega às notas dos
vinhos de "bíblias" (revistas e guias especializados) e/ou "gurus" (críticos de
vinhos) e baseiam suas escolhas de vinhos unicamente nas notas de tais fontes.
Alguns seguem suas "bíblias" e/ou "gurus" tão cegamente que só compram vinhos
aos quais os ditos deram boa nota e há ainda os, muitos ricos, que estabelecem
um patamar para a escolha: só compram vinhos que tiveram, digamos, acima de 95
pontos do crítico "X" (escala de 100 pontos) ou acima de 18 pontos da revista
"Y" (escala de 20 pontos). O enófilo maduro não se preocupa com tais notas, pois
são apenas referências entre outras tantas e, por isso, se convidado a falar
sobre vinhos, ele não as cita, a não ser não conheça os vinhos em questão. O
enófilo imaturo adora leituras de descrições de vinhos feitas pelas "bíblias" e
"gurus": antes ou depois da degustação de um vinho. O enófilo maduro sabe que,
além de enfadonhas, essas descrições, quando feitas antes da degustação,
influenciam a percepção sensorial dos degustadores e, quando feitas depois, são
absolutamente desnecessárias, já que o que importa é a percepção do vinho
daquela garrafa específica, bebido naquele momento específico! Afinal, cada
vinho não é um ser único?

Outras características do enófilo imaturo:

a) É bebedor de rótulos (quase só bebe vinhos consagrados pela história, pelo
preço ou pela crítica); b) bebe quase unicamente vinho tinto ("vinho de
conhecedores"); c) só bebe os demais tipos se forem famosos e não bebe nunca
rosé ("vinho de amadores"); d) na harmonização de vinhos e alimentos, é
preconceituoso e cheio de estrangeirismos ("chocolate só com Banyuls, aspargos
com vinho nenhum..."); e) sofre de idiossincrasias regionais ou tipológicas ("só
bebo Bordeaux" ou "só 'tops' californianos ou "só chilenos acima de 90 pontos";
f) se é rico, só compra vinhos muitos caros e enaltecidos pela crítica ("para
que beber o resto?"); g) para ele o vinho é instrumento de poder, status social
e sedução e, por isso, motivo de competição, intriga, desprezo e afastamentos de
outras pessoas ou grupos.

Outras características do enófilo maduro:

a) Não é bebedor de rótulos, adora explorar a fantástica diversidade dos vinhos
e o faz, frequentemente, às cegas; b) bebe vinhos de diferentes (e se possível
de todos) países, regiões, produtores, uvas, tipos e estilos; c) na harmonização
de vinhos e alimentos, é liberal e curioso, experimenta várias possibilidades
até encontrar a que lhe agrada; d) pode ter preferências regionais ou
tipológicas, mas não se deixa dominar por elas; e) se é rico, compra muitos
vinhos de qualidade excepcional, mas também vinhos "apenas" muito bons e bons;
f) para ele o vinho é instrumento de prazer, conhecimento, doação e, por isso,
motivo de comunhão, boa prosa, afeto e amizade.




Julio Anselmo de Souza Neto

Julio Anselmo de Souza Neto, natural de Poços de Caldas é Médico, Professor de Neuroanatomia da UFMG, enófilo e fundador da Academia do Vinho. Escritor, publicou recentemente o livro “O Vinho no Gerúndio”. É Presidente da SBAV/MG.


 
     
     
 
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  2004 | Morphe