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  Tiro o chapéu para a Miolo  
     
 

Estava eu voltando de Brasília nos idos de 1992, em um vôo da VASP,
quando perguntei à aeromoça qual vinho tinto estava me servindo e ela me mostrou um rótulo bem simples apenas com o nome “Miolo” (não era
“Seleção” nem “Reserva”). Achei um nome estranho pois me lembro miolos
de boi que não é uma boa associação com vinho. O vinho porém era correto e bastante agradável para um vôo após um dia de reuniões cansativas no Ministério da Educação.

Na época os vinhos servidos pelas companhias aéreas eram Almadén ou
Marcus James (da Aurora), e era o melhor que se tinha. Claro que já
conhecia vinhos nacionais de melhor qualidade que os servidos pelas
companhias aéreas. Fazia então parte de um grupo de degustação na ABS
(na época os grupos de degustação degustavam apenas dois vinhos, sendo
um branco e um tinto e quase sempre nacionais).

Algum tempo depois foram lançados os tintos da safra 1991, considerada a melhor do país, e se destacavam os vinhos Baron De Lantier Cabernet
Sauvignon 1991 (que está vivo até hoje e causa surpresas a cada nova
degustação), Gran Phillipe 1991 (da Chandon que produziu um excelente
tinto cujo nome era uma homenagem ao enólogo Phillipe Mevel), Aurora
Cabernet Sauvignon 1991 (cujo enólogo na época me confessou não entender porque estava sendo vendido tão caro em relação aos demais vinhos) e poucos outros.

Cerca de um ano depois participei de uma viagem às vinícolas do Sul com a ABS-RJ, sendo que numa das visitas programadas o ônibus quase não conseguiu passar pela estrada esburacada e cheia de poças de lama após uma chuva forte, mas afinal chegamos a um pequeno galpão de madeira com poucos tonéis de madeira e o telhado cheio de teias de aranha ao lado de três casas de colonos.

A estrada esburacada e enlameada era o Vale dos Vinhedos em seus
primórdios, ainda sem o nome e a IP. No galpão de madeira conheci um
rapaz entusiasmado com os vinhos que estava produzindo: Adriano Miolo.
No mesmo dia conheci seu pai - o Darcy – e a nona. Lembro-me que a nona nos convidou a ir até o porão da terceira casa onde entramos agachados e onde bebemos algumas garrafas de vinhos sem rótulo e que tinham idade incerta (neste local funciona hoje a Osteria Mama Miolo), enquanto alguns ficávamos impressionados com o que nos era servido a “nona” ofereceu o banheiro de sua casa para as senhoras utilizarem e as levou a sua horta onde colheu algumas ervas que eram boas para um chá que servia para curar quem exagerasse na bebida.

Quando leio hoje a história da vinícola estes dois primeiros episódios
não são narrados, mas permanecem vivos em minha memória e na de outros
poucos que lá estavam.

Algum tempo depois soube que nosso colega do Fórum ABS-RJ Windsor
Khauaja, que tinha sido Diretor de Eventos da ABS-RJ, estava
representando no Rio a Miolo.

Windsor conseguiu algo também surpreendente para a época: colocar o
Miolo Seleção em quase todos os restaurantes do Rio. Isso numa época em que poucos eram os restaurantes que tinham cartas de vinho e em que era muito raro pessoas pedirem vinhos num jantar, e em que o vinho mais bebido era o Liebfraumilch e suas variações nacionais. Windsor e a Miolo difundiram o vinho nas refeições.

Do Miolo Seleção (um vinho honesto para o dia a dia), grupos de
degustação começaram a degustar os Miolo Reserva que eram muito bons se comparados aos demais vinhos nacionais da época.

A cada visita que faço ao Sul, sempre gosto de passar pela Miolo. E
durante alguns anos pude acompanhar o entusiasmo do já não tão jovem
Adriano Miolo mostrando um novo prédio, um novo vinhedo convertido para espaldeira, um novo equipamento, um novo projeto. E na Osteria sempre tivemos Darcy e sua esposa Gladys se esmerando em preparar um bom javali numa refeição típica de colônia italiana. Minha memória registra o Célio Alzer certa feita ficando triste de tanto comer um “pien”, e Darcy feliz por estar mais uma vez com o pessoal da ABS junto ao Adriano e sua esposa Sabrina.

E a cada ano novas notícias e novos projetos:
- Adriano faz pós-graduação em marketing de vinhos em França;
- Miolo planta uvas no Vale de São Francisco e transporta em caminhões
refrigerados para vinificar em Bento Gonçalves e lançar a linha
Terranova de perfil mais básico;
- Miolo passa a vinificar os vinhos no Vale de São Francisco (e Adriano está me devendo uma viagem até lá há algum tempo), produzindo o Cabernet-Shiraz que sempre surpreende em degustações às cegas
- Adriano lança a idéia e lidera a criação da primeira IP brasileira, o Vale dos Vinhedos
- Adriano passa a importar carvalho e patrocina curso nos EUA para
Eugênio Mesacaza que reativa uma antiga tanoaria no final do Vale dos
Vinhedos e permite a todas as vinícolas terem barris de carvalho por um preço mais em conta
- Adriano cria o Lote 43 1999, o qual tive o privilégio de degustar logo que entrou para as barricas, após um ano, logo que foi engarrafado, quando foi lançado e agora com o seu auge após cinco anos
- Miolo começa a plantar uvas na Campanha Gaúcha, de onde saem vinhos de castas portuguesas
- Miolo contrata Michel Rolland (e até hoje estou com a entrevista que
fiz com o mesmo para ser passada a limpo e postada no Fórum, mas o tempo não para)
- Miolo passa a exportar vinhos para a França e eles são encontrados na Lavinia (a maior loja de vinhos de Paris) e na rede Casino de
supermercados (similar em conceito ao Zona Sul no Rio de Janeiro, mas
com lojas em quase toda a França).

Pode-se gostar ou não de vinhos nacionais da mesma forma pode-se gostar ou não de vinhos Miolo, pode-se questionar diversas coisas (aumento muito rápido da produção, preço, dentre outras coisas). O Fórum ABS-RJ mostra que existem os defensores ferrenhos da Miolo, da mesma forma que outros não gostam da Miolo de jeito algum. O assunto é sempre polêmico e gera muitas discussões e até mesmo brigas em nosso Fórum.

Quando fiz o Mestrado em Administração na COPPEAD estudamos em marketing um “case” da Miolo, e tive a oportunidade de levar o Adriano para uma palestra sobre a trajetória de sua empresa.

Não há como negar que Adriano Miolo - junto com seus irmãos e demais
familiares – é um empreendedor que em pouco mais de dez anos construiu
uma empresa respeitável e até mesmo admirável em qualquer lugar do mundo.

A melhoria da qualidade do vinho nacional deve muito ao empreendedorismo
da Miolo e a industria vitivinicola nacional cresce e melhora junto com
a Miolo.

Ontem tivemos o lançamento da joint-venture entre a Miolo e a chilena
Via Wines, da qual surge a Viasul Wine Group. Foi muito bom ver Adriano
e Alexandre Miolo ao lado de Jorge Coderch Mitjans entusiasmados com o
novo projeto.

Para quem não sabe Jorge Coderch é conhecido como “caballo loco” por
gostar muito de motos e andar como um louco por Santiago de Chile, muito
conhecem seu vinho de prestígio mas nem todos sabem que a Via Wines é a
empresa vinícola que mais cresce no Chile e que produz atualmente 27
milhões de litros de vinho.

Estamos sempre em busca de caminhos que nos levem a produzir vinhos cada
vez melhores”, diz Adriano Miolo.

Por já ter escrito muito vou deixar que as nossas colegas que foram
sorteadas para o jantar comentem os vinhos. No coquetel foi servido o
novo espumante chamado “Oveja Negra”, produzido no Vale do São Francisco
e que será exportado para o Chile onde já era hora de alguma vinícola
brasileira se preocupar em colocar no mercado nosso melhor vinho que é o
espumante.

Da mesma forma vinhos produzidos pela Via Wines no Chile serão lançados
no Brasil, inicialmente a linha Costa Pacífico com um Cabernet
Sauvignon, um Carmenere, um Sauvignon Blanc e um Syrah. Numa etapa
posterior alguns vinhos serão produzidos “a quatro mãos” - Adriano Miolo e Jorge Coderch.

Queria ter dito ao Adriano ontem que sua trajetória é de se “tirar o
chapéu” mas todos os presentes estavam anciosos em falar com ele de
forma que foi impossível um contato maior.

Termino desejando sucesso no novo empreendimento e torcendo para que a
Miolo não perca a característica de uma empresa familiar brasileira,
pois é de pessoas como Adriano, Darcy, Alexandre e “nona Miolo” que o
Brasil precisa.

Roberto Rodrigues
ABS-Rio

 

 

 
     
     
 
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  2004 | Morphe