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O vinho de minha vida |
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Qual o vinho que marcou a minha vida? Esta foi uma
das perguntas que mais me foram feitas pelos amigos
e leitores de meus artigos durante estas últimas
semanas. Falar de vinho, no meu caso, é falar
de vários momentos importantes da minha vida,
de conquistas profissionais, de romances, de amigos,
de consolo nas pequenas decepções - afinal,
como enóloga o vinho sempre está presente
no meu dia-a-dia; fica muito difícil definir
um único. Minha decisão foi esta: listar
alguns dos principais e estabelecer alguns critérios
para definir qual realmente foi o grande vinho. Já
degustei grandes vinhos, dos mais simples aos mais clássicos.
Em alguns casos, tive agradáveis surpresas com
vinhos bem acessíveis - como também grandes
decepções com vinhos clássicos
da humanidade. Neste caso, busquei os vinhos que marcaram
minha memória gustativa e também os que
me marcaram com suas pessoas e histórias envolvidas
- não levei em consideração preços
ou safras, nem aspectos comerciais, apenas a verdade,
sentimentos.
Um dos vinhos "mágicos" que fazem parte
da minha vida, sem dúvida, é o Chateau
d'Yquem 1995 (Lur-Saluces, Sauternes, França
- um vinho doce, de sobremesa). Tive a oportunidade
degustá-lo no Encontro da Pedra Azul, este ano,
e representou mais do que história, grãos
colhidos UM A UM, 42 meses em barrica (os quais quase
não são percebidos tamanha complexidade),
aroma a ser analisado por horas, onde mel, frutas secas,
amêndoas, frutas cítricas, botrytis, frutas
maduras, um retrogosto de não sei quantos minutos,
persistência, equilíbrio, qualidade, brilho
e que é quase uma covardia sugerir uma harmonização
tamanha a responsabilidade do prato e tanta coisa mais
que só estando diante da taça deste vinho
é possível vivenciar; representou o fato
de eu poder estar lá para degustar este e tantos
vinhos maravilhosos, conhecer outros apreciadores, abrir
portas. O mesmo carinho tenho pelo chileno Domus
Aurea (encorpado, complexo, de forte personalidade),
do qual participei de uma degustação vertical
e, a partir daquele momento, passei a ver de outras
formas o mundo do vinho e meu aspecto profissional.
Poderia citar outros tantos: Almaviva (Chile), Brunello
di Montalcino Pian delle Vigne Marchesi Antinori (sempre
um clássico, Itália), Pyrus Meritage (Austrália),
Gosset Millesime 1996 (França), Cometa Planeta
(Sicília), Barolo Renato Ratti Roche Marcenasco
1990 (Itália), La Tâche - Domaine Romanée
Conti - 1997 (França), Zuccardi Q Tempranillo
(Argentina), e uma lista que ainda seguiria viagem pela
Nova Zelândia, África do Sul, Brasil (como
o espumante da vinícola Marco Luigi - na ocasião
da elaboração da minha monografia em 2000,
cujo tema foram os Espumantes do Conesul, foi o melhor
pontuado nas degustações).
Mas, talvez a situação que relate o "Vinho
da Minha Vida", seja uma que vivi na safra do ano
2000, quando realizei estágio na Bodega Cruz
de Piedra - vinhos San Telmo - em Mendoza, na Argentina.
Convivendo com aquelas pessoas, (entre elas Raul de
la Mota - um dos grandes nomes do vinho mundial, Cesar
Azevedo - brasileiro, que acredita no potencial de toda
a América do Sul, entre outras pessoas), tive
meu estágio acompanhado por Esteban Castel, grande
enólogo, amigo e entusiasta da qualidade do vinho,
observando cada etapa do processo como obra-prima. Nesta
safra eu me dividia entre visitas de campo (para escolher
as uvas e observar ponto de colheita) e a vinícola
(onde me integrei em todo o processo, desde o recebimento
até engarafamento). Em uma ocasião, fui
convidada a participar de uma das degustações
que eram feitas dos vinhos já prontos, que estavam
descansando nas barricas de carvalho e aguardando o
momento certo para serem engarrafados - um ritual, o
vinho era retirado diretamente da barrica, na própria
adega, e se faziam comentários e anotações.
A cada vinho, o enólogo comentava sobre a safra,
procedência, quem havia colhido, quem havia engarrafado,
questionava sobre a longevidade - o funcionário
que nos acompanhava complementava as informações,
sempre com muitos detalhes - e vinham os comentários:
"...todo este corpo e fruta vermelha caracteriza
os vinhos que vem da "tal" propriedade, pois
o "tal" vinhedo tem esta exposição,
e nesta safra o "fulano" fez tal poda, por
isto precisa deste tipo de tostado..." Ia-se descrevendo
perante as taças, a cada instante, a história,
características, curiosidades da procedência,
da colheita, da gente de Mendoza. Após, ao subir
de volta para a vinícola, com todos aqueles vinhos
maravilhosos presentes na memória, este mesmo
funcionário me diz uma frase que marcou minha
vida: olha para esta garrafa (rotulada, pronta) - toda
a vez que você olhar para ela, em qualquer lugar
do mundo, lembra de todos que estão envolvidos
nisto, em toda a gente que há, que este vinho
representa, nos amigos que você fez aqui. Recentemente
vi este vinho no supermercado e foi o que senti: lembrei
de todas aquelas pessoas, aquele momento. Hoje penso
que talvez esta degustação tenha sido
um dos grandes momentos do vinho na minha vida, de onde
passei de estudante a profissional.
Espero aumentar a cada dia a lista dos vinhos da minha
vida - não estou nem no começo. Ainda
tem muitos vinhos especiais a serem conhecidos, muita
novidade que vai entrar no mercado. O que importa é
seguir "em busca" dos vinhos especiais, não
somente adquirindo e guardando em nossas adegas, mas
compartilhando com os amigos, com nossa família,
nossos amores. In vino veritas, en vino la vida; en
vino la alegria, la passión y la verdad. Salud!
Porto Alegre, 02 de outubro de 2004.
Texto de Maria Amélia Duarte Flores,
enóloga.
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