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  A maciez do Vinho  
     
 



É o equilíbrio entre as sensações adocicadas (álcool, açúcar e glicerina), ácidas e amargas.
Define se o vinho é agradável, no tocante a ação conjunta dos componentes essenciais da bebida e que correspondem àquelas sensações, em igual ordem decrescente de importância.
É a estrutura do edifício vinho.
Evidentemente, os bons vinhos, devido à sua complexidade, especialmente os grandes, têm muito mais do que a maciez para oferecer aos sentidos do olfato, do gosto, da visão, e, quanto à sensibilidade físico-química e ao tato.
Na verdade dos quatro gostos elementares apenas o açucarado é realmente prazeroso. Os demais (ácido, salgado e amargo) são tão somente suportados quando compensados por sabores adocicados.
O álcool é o principal componente do gosto açucarado, tanto pelo volume (12º corresponde a 96 g/litro ou a 72g/garrafa de 750ml) quanto por sua força adoçante.
Por exemplo, uma solução de álcool de 32g/litro (4º) é equivalente a uma de glicose de 20g/litro, que se torna ainda mais doce com a adição de um pouco de álcool. Em contrapartida o açúcar não atenua a sensação de calor daquele.
Todavia, pelo “calor” que transmite, pela causticidade (lipossolubilidade) e também pela sua ação desidratante, não deve ter um teor muito elevado (ardente).
A influência dos açúcares se limita aos vinhos suaves, amáveis. Convém não obstante salientar que a frutose (a única que sobra da fermentação) tem um poder adoçante 2,125 vezes maior que o da glicose e 1,625 vezes superior ao da sacarose.
Uma acidez insuficiente descaracteriza-o, tira-lhe o frescor (nos brancos) e a vivacidade (cor desbotada). Devendo ser bem dosada para o vinho assim ser chamado e contribuir para a durabilidade. Muito elevada torna-o intragável (áspero, duro), nada acrescentando odores excepcionais, por exemplo.
Os sabores ácido e açucarado modificam-se mutuamente. Os ácidos, mesmo num teor moderado, diminuem o gosto açucarado dos açúcares e da glicerina. Ao contrário, todavia, seriam necessárias dosagens maciças, em torno de 30 g/litro de açúcar (sacarose), para atenuar as sensações ácidas.
A acidez é composta pelos ácidos da uva, tartárico (o mais forte), o málico (o mais verde) que quando em excesso deve ser, total ou parcialmente, transformado em lático (menos agressivo), e o cítrico (frescor dos vinhos); e, pelos provenientes da fermentação, o lático (ligeiro, penetrante), o sucínico (mais amargo e salino que ácido, no sabor, por sinal o de maior riqueza neste aspecto – caracteriza as bebidas fermentadas e provoca a salivação), o acético (acidez volátil), que tem agrura ou sabor acre, percebida no fim de boca e potencializada no odor pelo acetato de etilo.
O sabor amargo é mais facilmente perceptível que o ácido e o doce. Todavia, pela localização das papilas respectivas no fundo da língua, ela acontece após a percepção do doce e do ácido, dificultando a avaliação da maciez dos vinhos.
Esta sensação é devida à ação dos taninos (diretamente) e as quinonas originárias da oxidação dos antocianos (corantes) e dos taninos.
Convém lembrar que os taninos também coagulam a saliva (que perde o poder de lubrificante bucal) tornando áspera a mucosa lingual, constituindo-se na principal causa da adstringência, que também pode ser produzida por sulfatos (bagas verdes e engaços). E que igualmente produzem indiretamente a “rugosidade”, sensação tátil desagradável, proveniente dos produtos da oxidação dos taninos (defeito de conservação). A adstringência diminui com o envelhecimento dos tintos, pois as moléculas dos taninos ficam maiores (polimerização) e não mais se combinam com as proteínas salivares.
A característica desagradável da acidez é reforçada pelo amargor, não obstante aquela, de início, cobrir as sensações amargas, que ao final (fim de boca) sobressaem de qualquer maneira.
Quando o amargor provém dos taninos, os gostos ácido e amargo adicionam-se, ocasião em que a acidez concomitantemente reforça a adstringência.
A circunstância de que a acuidade (limiar de percepção) aos gostos doce, ácido e amargo, ser muito diferente entre as pessoas, complica a detecção e julgamento da maciez.
Feitas estas considerações vejamos como pode ser aferida a maciez, que Emile Peynaud expressa na equação:

 

Índice de maciez = Teor alcoólico – (acidez total + taninos).
  em graus G.L. g/l ácido sulf.    g/l

 

Os vinhos tintos mais ásperos são os ao mesmo tempo ricos em ácidos e taninos. Uma forte dose de taninos é aceitável se a acidez for tênue. Como se pode deduzir da equação e se constata na prática, um vinho suporta tanto mais maciez quanto maior for a graduação alcoólica.
Para os vinhos brancos desaparecem da equação os taninos (exceção para poucos brancos envelhecidos em carvalho) reduzindo a maciez a uma simples dualidade entre os álcoois e os ácidos, devendo prevalecer o equilíbrio, ou seja, o vinho deve ser “fresco” e “vivo”, ao invés de “ácido” ou “ardente”.
Um índice entre 5 e 6,5 corresponde a um vinho macio, pleno, redondo, aveludado, agradável. Abaixo de cinco a um amargo, duro, azedo, áspero. E acima de 6,5 aos vinhos gordos, pastosos, carnudos.
De início sente-se (nos 2 a 3 primeiros segundos – no chamado ataque) uma sensação macia, adocicada, agradável, proporcionada pelo álcool, pela glicerina e pelos açúcares dos chamados vinhos “suaves” (frutose e sacarose – esta de adição). Em continuação, na chamada “evolução”, outras sensações (gostos e retro-gostos) se sobrepõem e encobrem parcialmente o gosto açucarado. No “fim de boca” (que continua inclusive após a eliminação ou deglutição), em geral sobra (após alguns segundos) uma impressão menos agradável, ácida e amarga. Apenas os grandes vinhos se conservam agradáveis até o fim.
Por tudo o que foi dito é que, em nossa opinião, as fichas de degustação devem contemplar a percepção da maciez, diferente da harmonia, que diz respeito ao conjunto das sensações com que nos brindam os vinhos.

Lino Paulo Zardo

 
     
     
 
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  2004 | Morphe