Com a multiplicação de eventos enogastronômicos,
informações sobre enofilia,
rótulos de vinho nas lojas, cresce também
o número de enochatos. Relutei para
tocar neste assunto. Aliás, sempre que deparo
com um deles, penso se eu mesma já
não seria uma enochata. Nessas horas, recorro
ao mantra que adotei logo nas
primeiras taças e repito à exaustão
sempre que necessário: "De vinhos, não
existem conhecedores, só aprendizes".
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Adoto também algumas regras de convivência
que, espero, estejam sendo
suficientes para que meus interlocutores não
salivem por uma cerveja gelada
diante de minhas modestas manifestações
sobre vinho. Uma delas é jamais citar
Robert Parker em conversas descontraídas. Os
vinhos que ele toma e pontua em sua
respeitada publicação, a The Wine Advocate,
são muito diferentes dos que eu
posso ter em minha pequena adega de alta rotatividade.
Aliás, eu tomo muitas
marcas brasileiras, e duvido que mister Parker localize
nosso País no mapa do
vinho.
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Gente, eu não sei qual é o cheiro de
um cassis pisado, nunca estive diante de
uma raposa molhada (o animal mais próximo que
vi nessas condições é cachorro
na
chuva, mas posso garantir que nunca provei um vinho
com aroma sequer parecido) e
tampouco posso diferenciar odores de petróleo
e asfalto. Daí, eu fico muda
quando algum enochato aponta tais notas em vinhos em
que só consigo perceber
frutas vermelhas, ervas frescas ou cítricos.
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Em restaurante, os amigos, por generosidade e em respeito
à minha conhecida
curiosidade sobre o assunto, sempre me dão a
honra de experimentar o vinho antes
de autorizar o serviço ao garçom. Embora
o ritual seja amplamente difundido,
faço-o com algum constrangimento e muita discrição,
mesmo porque, na maioria das
vezes, os vinhos em questão não exigem
muita cerimônia, por serem bastante
simples. Basta observar se a temperatura está
adequada e se o vinho não está
estragado (bouchonné, diriam eles), o que consigo
discriminar com razoável
segurança. Além do mais, trata-se de uma
refeição, não de um concurso de
vinhos,
portanto não há necessidade de se fazer
bochechos com a bebida na boca.
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Amigos, não guardo de memória as grandes
safras européias, americanas, chilenas,
argentinas... Se precisar desse tipo de informação,
tenho que pesquisar, o que
faço com prazer. Eu não tenho grandes
vinhos safrados em casa. Os que
experimentei foram em ocasiões especiais, como
degustações orientadas e visitas
a vinícolas. Aliás, eu sou contra adquirir
garrafas que possam desequilibrar o
orçamento.
Por isso, tento melhorar meus critérios e parâmetros
de compra. Em resumo, pouco
falo de vinhos míticos.
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Adoro champanhes, mas se tiver que dar uma festa em
casa, meus convidados vão
compartilhar bons espumantes, pois são alegres
e baratos. É festa, oras bolas,
momento de descontração, de conversa mole...
nada de ficar procurando fermento
de padaria no copo. Além do mais, para estudar
vinho existem locais e ocasiões
mais apropriados. Aí, sim, seriedade, atenção
e troca de informações são
bem-vindas. Desde que o vinho não deixe de ser
prazer. Saúde!
Suzamara Santos
- Publicado na Revista Metrópole, do
Jornal Correio Popular, de Campinas.