Anqueu, filho de Posêidon, era um dos heróis
que tripulavam o navio dos Argonautas, na lendária
viagem de Jasão em busca do velocino de ouro.
Quando Tífis, o timoneiro, morreu de uma doença
misteriosa, foi Anqueu o escolhido para assumir o seu
lugar, pois, sendo filho do deus do mar, conhecia mais
do que ninguém o lugar das estrelas no céu
e o ritmo oculto das marés. Guiado por sua mão
segura, o navio Argo foi e voltou da distante Cólquida,
ingressando para sempre na galeria dos mitos imortais.
Quando Anqueu voltou para seu reino em Samos, a vindima
daquele ano estava praticamente concluída, e
os intendentes do palácio apresentaram-se com
uma excelente notícia: a parreira que ele tinha
plantado com as próprias mãos, alguns
anos antes, tinha produzido uma uva abundante, e o primeiro
vinho feito com ela estava pronto para ser bebido. Para
Anqueu, esta era uma notícia realmente especial,
pois assim se desfazia a sombra de uma estranha maldição
que pairava sobre ele: um de seus servos, revoltado
com o árduo trabalho do plantio, havia predito
que ele não viveria o bastante para provar o
produto deste vinhedo. Agora, porém, o vinho
estava ali, ao alcance de sua mão, na taça
cheia que lhe estenderam. Com um sorriso triunfante,
Anqueu ergueu-a na luz para apreciar o belo tom sangüíneo
da bebida; depois, levou-a junto às narinas e
aspirou o perfume quase selvagem, que lhe trouxe à
lembrança as encostas ensolaradas de sua ilha.
No entanto, antes de beber, mandou trazerem à
sua presença o servo que o amaldiçoara.
"Olha bem", disse ele, "vou engolir a
tua profecia juntamente com este vinho!". O servo,
contudo, não se deu por vencido: "Senhor,
lembra-te que da taça até a boca muita
coisa pode acontecer!". Nesse momento, com efeito,
entrou um lavrador esbaforido, gritando que um grande
javali estava destruindo as plantações.
Sem hesitar, Anqueu depôs a taça sobre
a mesa, pegou a lança e saiu no seu encalço
- para morrer minutos depois, com a artéria da
coxa seccionada pela presa afiada do traiçoeiro
animal.
Por que paraste, Anqueu? Por que foste perder tempo
mandando buscar o escravo, por que foste combater aquele
estúpido javali? Eras sábio para ler as
estrelas e as profundezas do mar, mas ignoraste a mais
antiga das regras: quando a vida, que nem sempre é
generosa, resolve encher nossa taça, bebamos!
Quando esse raro vinho está servido, não
é hora de acertar contas antigas, não
é hora de se preocupar com os negócios.
É bebê-lo - ou perdê-lo para sempre,
levando para a morte a tortura de não saber,
afinal, que gosto ele teria na boca.
Por Cláudio Moreno, professor, escritor;
autor de "Tróia, o Romance de uma Guerra"
e de "Um Rio que Vem da Grécia"
(publicado em Zero Hora, 26/4/2005)